Leilões de energia em 2025 movem R$ 20 bi, mas frustram expectativa

Barroso, da PSR: Temor de blecaute acelera leilões de capacidade em 2026 - Foto: Leo Pinheiro/Valor -
Adiamentos e judicialização esvaziaram a agenda do setor, reduziram investimentos e elevaram riscos à segurança energética
Por Robson Rodrigues
Apesar de movimentarem quase R$ 20 bilhões, os leilões de energia realizados em 2025 ficaram abaixo do que o mercado projetava. A cifra bilionária, embora relevante em valores absolutos, representa menos da metade do que era esperado para o ano.
Os cálculos iniciais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), estimavam que 2025 poderia movimentar entre R$ 47 bilhões e R$ 57 bilhões em investimentos. Desse total, de R$ 45 bilhões a R$ 50 bilhões viriam de projetos de geração, além de R$ 7,6 bilhões previstos para transmissão.
A principal frustração do setor esteve no leilão de Reserva de Capacidade (LRCap), considerado estratégico para a segurança energética do país. O certame foi adiado em meio a intensos lobbies de diferentes segmentos da indústria e do setor elétrico.
A guerra de liminares judiciais fez com que o governo optasse por cancelar o evento como estratégia jurídica para conter o avanço das contestações. Na época, o presidente da EPE, Thiago Prado, já alertava que a judicialização poderia levar ao que na economia é conhecido como "tragédia dos comuns", situação em que agentes, ao agirem para maximizar seus próprios benefícios, comprometem o interesse coletivo.
Mesmo assim, ao longo do ano de 2025, os principais certames somaram valores expressivos: o de transmissão de energia movimentou R$ 5,5 bilhões; o leilão de pequenas hidrelétricas (A-5) fechou com R$ 5,4 bilhões; o certame do risco hidrológico, com R$ 1,34 bilhão; e o leilão de energia existente, R$ 6,5 bilhões, entre outros. (Ver gráfico acima).
O presidente da consultoria PSR, Luiz Barroso, destaca que 2026 será o ano em que o Brasil vai promover leilões que já deveriam ter sido realizados em 2024 e que o medo de um blecaute será o grande acelerador do processo.
"O leilão de capacidade vai ser realizado com dois anos de atraso e o de baterias poderia ter ocorrido em 2025. O leilão é imprescindível para a segurança de suprimento. Ele precisa sair sob o risco do sistema entrar em um problema de suprimento real", diz.
No caso do leilão do chamado "risco hidrológico" (GSF, na sigla em inglês), o especialista lembra que a disputa não trouxe um investimento direto, mas teve papel relevante ao reduzir incertezas que se arrastavam há anos no mercado. Ao permitir a renegociação e a realocação dos riscos associados à geração hidrelétrica, ajudou a encerrar disputas judiciais, dar previsibilidade aos fluxos de caixa das empresas e diminuir o risco regulatório percebido por investidores.
Sobre o leilão de baterias, a indefinição regulatória acerca do papel do armazenamento no sistema, a disputa com o setor termelétrico e a indefinição sobre quem paga por alguns serviços travaram a decisão política. O governo jogou o certame para abril de 2026.
No setor de transmissão, a retirada de alguns lotes reduziu o tamanho do leilão. Mesmo assim, o evento foi considerado importante, pois trouxe tecnologias que ajudam a reduzir os cortes de geração de energia impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), conhecido como "curtailment".
Márcio Santiago, responsável pela área de energia e infraestrutura da butique de investimentos Araújo Fontes, lembra que 2024 foi um grande ano para os leilões de energia, com os megaeventos do Nordeste. Já 2025 foi o ano da "calibragem", que movimentou bem menos em comparação com o ano anterior.
"Observa-se uma retração de aproximadamente 54% no volume total de capex contratado, muito em conta de um vazio no calendário, como a ausência do leilão de transmissão do primeiro semestre de 2025, e aumento de 10 gigawatts (GW) por ano de geração distribuída entre 2023 e 2025, limitando o espaço para os leilões tradicionais de geração", explica o analista.
Segundo Santiago, com os retornos de projetos comprimidos neste cenário de sobreoferta de energia, as incertezas regulatórias dos cortes de geração e a curva de juros elevada, o capital migrou da construção para a consolidação em fusões e aquisições e para nichos de alto retorno, como sistemas isolados.
Na avaliação do advogado especialista na área de energia da Martorelli Advogados, Matheus S. de Lima, a judicialização e os impasses regulatórios empurraram decisões críticas para uma janela temporal estreita, entre março e abril deste ano.
Segundo ele, 2026 não está livre de viver situações parecidas. Para Lima, é no leilão de armazenamento de energia que reside o maior potencial de litigiosidade. O advogado lembra que a Lei nº 15.269 introduziu um dispositivo em certo grau polêmico ao determinar que o armazenamento, quando contratado como reserva de capacidade, deve ser remunerado pelos geradores.
"O texto legal, contudo, é vago ao não especificar quais geradores arcarão com essa conta. Isso cria um contencioso iminente: geradores renováveis, que já sofrem com 'curtailment', dificilmente aceitarão esse encargo sem disputa administrativa ou judicial. Adicionalmente, o arcabouço regulatório para armazenamento ainda carece de definições fundamentais sob a Consulta Pública nº 39/2023, o que embora não impeça o desenvolvimento do leilão, deixa investidores momentaneamente sem clareza", diz.
Valor
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/01/12/leiloes-de-energia-em-2025-movem-r-20-bi-mas-frustram-expectativa.ghtml


