ARMAZENE - Associação Brasileira de Armazenamento de Energia

Energia pode atrair aportes de R$ 137 bi

Thiago Prado: "Haverá uma sequência de obras para dar mais confiabilidade" - Foto: Wenderson Araujo/Valor -

Estimativa realizada pela EPE, ligada ao MME, para os leilões de 2026, projeta alto potencial de volume de investimentos em geração e transmissão


Por Robson Rodrigues

O governo federal projeta que os leilões de energia previstos para 2026 podem movimentar cerca de R$ 137 bilhões em investimentos. A estimativa foi realizada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), a pedido do Valor.

O montante é quase sete vezes maior do que a soma dos leilões realizados em 2025. O volume tão alto se deve principalmente ao adiamento do leilão de reserva de capacidade - LRCap (segurança energética) -, que deveria ter ocorrido em anos anteriores e criou uma demanda reprimida. Somam-se ainda os lotes retirados do leilão de transmissão de 2025, que voltarão ao mercado agora.

Do total estimado, R$ 14 bilhões correspondem a leilões de transmissão, enquanto outros R$ 123 bilhões estão associados aos leilões de geração de energia, com destaque para os certames de reserva de capacidade.

No segmento de transmissão, os investimentos dependem ainda da análise e da aprovação, pelo MME, dos estudos técnicos elaborados pela EPE. Estão previstos dois certames em 2026. O primeiro deve ocorrer em março, com expectativa de R$ 5 bilhões em aportes. O segundo está programado para outubro e concentra a maior fatia, com R$ 9 bilhões estimados.

"Se a gente pegar a janela de 2023 a 2026, o total de investimentos no setor de transmissão vai ser algo aproximado de R$ 85 bilhões, cerca de 141,7 mil empregos diretos, o que deve gerar arrecadação ao governo federal em torno de R$ 16,7 bilhões", diz Thiago Prado, presidente da EPE.

O executivo diz que, para 2026, haverá uma sequência de obras para dar mais confiabilidade energética, principalmente para a região Norte, e interações energéticas com a Bolívia e Venezuela.

Já os leilões de geração respondem pela maior parcela dos recursos projetados. A estimativa da EPE é de R$ 123 bilhões, considerando a possibilidade de até quatro leilões de reserva de capacidade, com a realização de dois deles prevista em portaria do MME para março.

"Os leilões de reserva de capacidade são fundamentais para a segurança energética e resiliência na continuidade do suprimento de energia elétrica para os próximos anos, inclusive em relação aos efeitos das mudanças climáticas na demanda e oferta de eletricidade do país", acrescenta.

Este certame é o mais aguardado pelo setor. Ele deveria ter acontecido em 2024, mas foi adiado em meio a intensos lobbies de diferentes segmentos da indústria e do setor elétrico.

A guerra de liminares judiciais elevou o grau de insegurança regulatória e fez com que o governo cancelasse o leilão como estratégia jurídica para conter o avanço das contestações.

A demora colocou o país em risco real de apagão, já que o atraso do leilão impediu a contratação antecipada de potência firme necessária para atender picos de demanda e períodos de escassez hídrica, por exemplo, reduzindo a margem de segurança do sistema elétrico. Sem essa contratação, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ficou mais dependente de soluções emergenciais, mais caras e menos confiáveis.

Também colocou toda a cadeia do setor em modo de espera para eventos que devem movimenta todos os segmentos. São esperados grandes competidores na disputa, como Engie, Axia (ex-Eletrobras), Spic, Âmbar (J&F), Eneva, WEG, Siemens Energy, Voith, entre outros.

Também entra na conta a possibilidade de um leilão específico para armazenamento de energia, previsto para abril, caso o ministério decida avançar com esse modelo, que já foi objeto de consulta pública, e a contratação de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).

O risco de novas judicializações não está descartado pelo mercado e pode fazer o volume contratado diminuir. Para especialistas do setor, o cenário de 2026 não é só de retomada: é um teste de estresse institucional, com a reabertura da agenda de leilões de capacidade.

Para o advogado Raphael Gomes, sócio de energia do escritório de advocacia Lefosse, a contratação de novos sistemas de armazenamento pode retomar o risco de questionamentos, uma vez que a Lei 15.269/25 estabeleceu que somente as empresas geradoras de energia irão arcar com os custos.

"Considerando os benefícios dessa tecnologia para toda a sociedade, pode haver alegações de que a norma contraria preceitos concorrenciais e de razoabilidade que pode ameaçar a realização do certame", diz Gomes.

Vitor Mello, sócio da área de energia do Rolim Goulart Cardoso Advogados, afirma que a estratégia do leilão com separação por fontes de geração de energia reduziu o risco de judicialização.

"Essa separação evita uma competição direta entre tecnologias que têm custos e características operacionais muito distintas. Isso acaba por reduzir a possibilidade de contestação. Foi um aprendizado em relação a 2025."

Valor
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/01/12/energia-pode-atrair-aportes-de-r-137-bi.ghtml